CineClube Kalunga: Visibilidade Negra nas Telas do Cinema Goiano

Por: Divanilde Carvalho, Eduardo Borges e Jarli Guajajara

De acordo com Laísa Silva, moradora da comunidade quilombola Vão do Moleque, a palavra “Kalunga” tem sua origem de uma planta medicinal, que era utilizada para tratar doenças dos quilombos mais afastados que não tinham acesso a uma saúde de qualidade. No entanto, essa palavra também é usada para dar nome ao um projeto de cinema de Goiânia conhecido como Cine Kalunga, criação da estudante de Medicina Hellen Stephanye Rosa de Oliveira.

O cinema foi criado há onze meses, no dia 15 de Junho de 2018, com a exibição do filme “Preciosa”, indicado ao Oscar de Melhor Filme em 2010, e foi exibido na Vila Cultural Cora Coralina. “Um dia tive a oportunidade de ir numa sessão na Vila Cultural Cora Coralina no ano passado, então conheci um dos idealizadores do CinecluB, após o filme comecei a questionar ele porque não tinha uma representatividade de filmes com temática do movimento negro, cineastas e também um elenco. Isso foi bem antes de ter a estreia do filme Pantera Negra, então ele me disse que tinha várias questões que a mídia não dava visibilidade, por fim, criei o cineclube Kalunga com o intuito de dar essa visibilidade que antes não tinha”, fala Hellen, idelalizadora do Cine Kalunga.

Em 2018, o Cine Kalunga não contava com nenhuma ajuda ou colaboração para a exibição de seus filmes, no entanto, recentemente a equipe conseguiu cadastrar o cinema como um projeto de extensão da Universidade Federal de Goiás, o que, segundo Hellen, acabou facilitando a realização das sessões. Dessa forma, as exibições dos filmes costumam acontecer no Museu Antropológico, e também na Vila Cultural Cora Coralina. Eles também exibiam filmes na Catedral das Artes, mas por indisponibilidade do público de locomover-se até lá decidiram parar com as exibições nesse local.

CIRCUITOS E EXIBIÇÕES

O Cineclube Kalunga já exibiu diversos filmes e documentários, todos sobre a cultura negra ou que abordam questões raciais. O projeto traz curtas e longas aclamados por público e crítica especializada, sendo o principal objetivo valorizar a cultura negra e quilombola existentes. Alguns dos maiores sucessos do diretor Spike Lee já ganharam destaque e vão voltar novamente nos meses de maio e junho de 2019. O chamado “Circuito Spike Lee” contou com a exibição de três longas do diretor negro, sendo eles Malcolm X, Do The Right Thing e O Infiltrado Na Klan.

Hellen Stephanye, diz que esse e os outros circuitos foram grandes sucessos e que isso abriu o caminho para que outros diretores também sejam homenageados. “Estamos com vários circuitos. Além desse, já tivemos um de cineastas negras brasileiras com quatro curtas com a direção de mulheres, apresentando a narrativa “O Corpo Negro e Seu Cotidiano”. Além deste, temos também o Black LGBTQ+, sendo que este termina no próximo mês.” A coordenadora também explicou que em média todos os circuitos tem três filmes, mas isso pode variar dependendo do tema, como foi o caso das cineastas.

Há também mais dois circuitos, sendo eles o de cineastas negras de outros países e o de férias, este último não tem um número determinado de exibições. A coordenadora enfatiza que mesmo os longas sendo sobre o movimento negro, abordam questões diferentes e que após as férias vão ter outros circuitos com outras temáticas.

Quando indagada sobre a seleção dos longas e curtas, a coordenadora diz que atualmente não há muitas barreiras burocráticas, mas que antigamente o projeto enfrentou entraves, sobretudo por conta de direitos autorais. No entanto, após o museu antropológico da UFG ceder o espaço para o projeto, os problemas acabaram. “Procuramos o Museu e lá já funcionava um cine, então eles abriram as portas para o Cineclube Kalunga com uma sessão por mês”.

Sobre os filmes em si e como são escolhidos, a coordenadora explica: “geralmente recebemos sugestões de cinéfilos (fãs) e caso não tenha, nós da organização fazemos uma seleção de filmes disponíveis para downloads com temática dentro do universo negro.” Um dos primeiros filmes exibidos em 2018 foi Malcolm X, longa que trata da cinebiografia do líder negro estadunidense. Outros grandes títulos também passaram pelo projeto, como é o caso de Do The Right Thing, Coffy, The Watermelon Woman e até mesmo O Infiltrado Na Klan, sendo que este vai retornar às telas do Kalunga em 2019 no mês de maio.

RODA DE CONVERSA

Após as sessões, o coletivo negro universitário (CONU) promove uma roda de conversa, que aborda não somente questões técnicas como fotografia e direção, mas também elementos subjetivos e que necessitam de uma análise mais aprofundada. Carolina Lucas, estudante de jornalismo da Faculdade de Informação e Comunicação da UFG, já participou de inúmeras rodas de conversa, tendo inclusive coordenado um dos debates sobre o filme Do The Right Thing, do cineasta Spike Lee. “foi uma experiência incrível. Aconselho todos a participar” diz Carolina.

DUBLADO OU LEGENDADO?

Uma questão bastante “polêmica” que permeiam os cinemas é a do dublado VS legendado. Sobre isso, Hellen Stephanye afirma que o cineclube faz sempre o que os espectadores gostam e a preferência são filmes com legenda para os longas e curtas estrangeiros. A coordenadora ressalta ainda um ponto importante que dá vantagem aos filmes legendados: “Muitos que frequentam o cine são de outros países, então a escolha é sempre legendado, mas até mesmo os filmes brasileiros são exibidos com legenda em inglês justamente para facilitar a compreensão”.

Agora que você já conhece um pouco mais sobre o projeto, que tal participar? A próxima sessão vai acontecer naquinta, dia 23 Ás 19 horas no Museu Antropológico da Universidade Federal De Goiás. A entrada é gratuita e o filme exibido será Mudbound: Lágrimas Sobre O Mississipi. Já na próxima semana, dia 28, o filme exibido será O Infiltrado Na Klan e vai acontecer na faculdade de letras ás 14h.

REDES SOCIAIS

O Cine Clube Kalunga pode ser acessado pelas redes sociais como Instagram e Facebook, onde é possível acompanhar e ficar sabendo sobre próximos filmes e documentários. Também, ficar por dentro de encontros e debates em grupo sobre cultura, preconceitos, desafios, vitórias e o cotidiano da comunidade negra, e conhecer as instalações da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Instagram: @cineclubekalunga

Facebook: CineClube Kalunga

Créditos:

Divanilde Carvalho – REDES SOCIAIS, SELEÇÃO DAS FOTOS

Eduardo Borges – CIRCUITOS E EXIBIÇÕES, RODA DE CONVERSA, DUBLADO OU LEGENDADO?

Jarliane Guajajara – INTRODUÇÃO DA REPORTAGEM, SELEÇÃO DAS FOTOS

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